Sempre fui de criar histórias. Passei a maior parte da minha vida criando, deixando com que minha vivência as adicionasse mais personagens, cenários e significados à essas minhas fantasias. A música nunca deixou de ser a narrativa que mais me excitava, e o Rap, com certeza, foi o capítulo mais complexo e profundo que me atrevi a desenvolver (isso porque não terminei de escrevê-lo ainda).
Ao me aprofundar no movimento, aumentavam-se o número de mortes e nascimentos, a arte tornava-se cada vez mais sangrenta, e eu, com o meu dom de pensar & problematizar demais, enxergava cada vez mais claramente seus conflitos. Dessa forma, tendo meus 17 anos e uma realidade completamente diferente de um músico & ativista do movimento, ou gênero musical (como você particularmente o enxerga), tive a vontade de sair do meu posicionamento achivista e procurar a voz dos verdadeiros artistas para concretizar minhas intrigas. Quem sabe podem ser as suas também.
Expondo minha opinião vazia, o Rap sempre foi uma necessidade. Seja na sua origem, uma intervenção política, sobrevivência social & manifestação de diversas realidades urbanas. Ou em uma das suas novas vertentes, um meio de expressar a arte como um todo, manifestações introspectivas, visuais , um instrumento de comunicação do ser independente da sua mensagem. Esse último, muito pela objetividade da sua estrutura talvez, uma estética que possibilita uma fácil compreensão lírica do interessado. O problema, no meu entender, é o diálogo entre as duas (vamos simplificar nessa dualidade, mas são inúmeras) vertentes do RhythmAndPoetry.
A ideia disto aqui (seria uma entrevista? Chame como quiser) seria buscar a visão dos agentes sobre a situação. Eu poderia usar minha esquizofrenia inteira para introduzir meus pensamentos sobre, mas do que valeria toda essa pesquisa, né?
A animação pro projeto foi instantânea. Porém, a maneira em que tudo ia ser feito me veio numa reunião de futuro na mesa de um bar copo sujo qualquer. A epifania veio no acender de cigarro da primeira vítima, Artur Queiroz, 19 anos, mais conhecido como Bagin do grupo InMundos. O estalo daquele pequeno feixe de luz fez-me automaticamente estender o celular da mesa e iniciar o alplicativo de gravação do meu celular. O primeiro profissional da área no meu papel seria um amigo.
“Eu tento sempre quebrar o significado das palavras” ele disse. “A música permite que a gente faça das palavras mais do que elas são, tá ligado? Eu tento transmitir o que eu sinto, aquilo que não cabe palavras, usando elas de forma diferente. Acho que quando cê faz isso musicalmente bem feito, cê pode causar uma sensação em outra pessoa.”
Nisso já estávamos fora do espaço do bar, quase na rua, como se discursando pra ela. “Um exemplo. Quando você ouve um cara com um flow (técnica de canto/abordagem) mais calmo, ele tá de certa forma acalmando quem tiverouvindo, junto com sua mensagem.”
Então, fiz a mesma indagação que desenvolvi nos primeiros parágrafos dessa matéria. “É lógico que dá uma desfigurada. Você vê que o Rap chegou com uma ideologia, mas não adianta se você não consegue transmitir essa mensagem numa amplitude maior. Hoje em dia tem muita gente já fugindo disso, mas cabe a visibilidade pra cena como um todo. Tem neguin que não quer ver um trabalho engajado, as vezes por viver de outros meios e culturas, mas acaba tendo acesso a uma cultura nova, que é o Rap, por ele estar abrangendo temas novos, pessoas novas. Tudo na vida tem lado bom e lado ruim. Por mais que distorça o que sempre foi, tá trazendo muito mais gente e enriquecendo essa cultura. Nada é inerente ao tempo.”
“Mas a gente tem que manter também o que é de verdade. É um grito de um povo sem voz, o que existe e não é dito em lugar nenhum. Por mais que entre pra mídia, ainda é anormal pro senso comum.” E porque não exemplificarmos, não é? “No Rap gringo, se fala de ambição de uma forma diferente. Eles cospem na cara da mídia, ‘Ahh buceta maconha etc’, os artistas mostram a revolta deles mesmos. Vieram do nada, fizeram um bagulho próprio, sozinhos, sem apoio de marketing ou da população. Quem vai dizer que isso não é uma forma de protesto também?”
De despedida, uma pergunta mais pessoal. Um relato de como as pessoas são atráidas pelo Rap, naquele caso, eu queria saber o que o Bagin enxergou para estar naquela posição atualmente. Não restavam Marlboros acesos para me responder.
“O que eu chapo muito no Rap é que as linhas costumam ser bem simples, tá ligado? A quadra do Rap não é difícil de fazer. Lógico que, quando cê começa a entender o contexto, você descobre recursos muito mais complexos de encaixar, multissilábicas, metáforas etc. Mas tendo uma bateria simples e alguém rimando, você já tem um Rap. Essa simplicidade permite que seja mais fácil de cada um se expressar. É uma arte acessível. Qualquer um que se disponha, gaste um tempo & esforço consegue, talvez não de boa qualidade, mas o seu. A gente fazer o que é nosso, mesmo com diversas influências, é a sua cara. Cê entende aquilo que nunca falou pra si mesmo. Você se sente representado de uma maneira que você nunca sentiu ser representado.”
Alguns dias depois, no show do rapper carioca Bk’, do Nectar Gang, tive a oportunidade de entrevistar dois nomes mais conhecidos em Beagá.
Desde que se tem alguma influência estrangeira sobre a estética do underground, a casa adequava-se, não por fidelidade ao visual do movimento, mas pela ausência de incentivo e suporte, ao cenário desgastado e marginal do qual se origina as raízes do Hip-Hop. A abstinência vivenciada em Beagá em razão de casas de shows levava a cena a um estacionamento alugado, talvez o mais conveniente conforto do baixo centro da cidade.
Na transição do show de abertura e o principal, consegui puxar a atenção do Oreia do grupo DV Tribo. De cabeça baixa expliquei a proposta da entrevista, nunca se sabe quando está estragando a festa de alguém. Enfim, a ideia era agendar um encontro, mas resolvemos tudo naquele instante.
“O difícil é ver o bom senso & equilíbrio da galera. É saudável demais o que o Rap tá virando, o que ele virou e o que ainda vai virar. Agora nós temos espaço. Viemos da roça pra falar o que nós quisermos. De passarinho, de cavalo. A galera pode continuar falando de favela, outros vão falar de amor. E é isso, isso é muito doido e Rap é gênero musical.” A voz icônica de suas músicas não mudava em nada no diálogo . “Apesar de sua origem ter sido na periferia; e nós temos sempre que honrar isso, conhecer seus fundadores & pioneiros; não podemos fazer tudo o que eles fizeram e continuar falando das mesmas coisas.”
“Uma opinião pessoal, também, não se deve incentivar a galera a fazer coisapaia. Mas como julgar isso, né? Quem somos nós? Cada um tem o que falar, no momento em que quer falar. As vezes o que é bom pra mim num é bom procê, e vice-versa. Então, cada um tem sua fase e seu momento. Uma hora adolescente, outra adulto, escutando coisas diferentes. O Rap, como qualquer gênero musical, tem suas vertentes, e isso é saudável demais, mas não vamos esquecer de RZO e Sabotage que é nóis que pira.”
“Eu sempre estive no meio alternativo, começando a escutar os trem com os meus pais, Alceu Valença, e depois dos 12 anos, o rock e o reggae. Daí, quando escutei o primeiro Rap, aí eu já fiquei cabuloso, o bagulho já balançoue agora tá dentro de mim. Batida, caixa e bumbo. É aquele suingue mesmo, e foi isso que me fez entrar pro rap. E eu amo o Rap, escuto desde sempre, os gangsters. Até que surgiu outra vertente, SP Funk e Quinto Andar, e eu fissurei. E falei ‘Rap é loco demais, dá pra fazer tudo’. Não uso muito de técnica, é mais escrever, soltar poesia.”
Logo ali, escutando o fim da conversa e brincando com sua barriga de chopp,estava o último MC a ser entrevistado. Djonga, do coletivo DV Tribo, já estava sendo convidado pelo colega a tirar um pouco de seu tempo para a minha matéria. Seguimos o procedimento padrão.
“Mano, pra mim, qualquer manifestação do ser é política.” A atmosfera de um artista para o outro era enorme, me impressionava personalidades tão fortes e diferentes fazerem parte do mesmo projeto musical. “ A gente trocando uma ideia, debatendo e negociando sobre qualquer coisa já é política. Então, não tem essa de só o Rap como expressão política na sua origem.” Essa frase me deu vergonha de ter estruturado minha pergunta dessa maneira, mas é sempre bom ouvir algo incômodo.
“A arte é uma expressão cultural e social em primeiro lugar, claro, mas que independente de qualquer coisa é sempre política. Tá sempre dialogando com a sociedade, certo? O Rap faz parte da música, não é diferente do rock, do funk, não é diferente de nada.
De susto, uma cabeça surge gritando “É ZONA LESTE P****!” na nossa gravação, e o Djonga automaticamente se manifesta “Esse é meu irmão”. Se era de sangue ou não, não havia por que questionar. Pela movimentação, a atração principal do show acabava de entrar no palco, mas ele não parecia se importar com a minha intervenção em sua festa, assim continuamos.
“Eu acho mano, que de um modo geral, na arte a gente tem que passar o que quisermos passar, o que vivemos e acreditamos. Nem que seja um história. Quando vemos um filme, aquilo é uma história. Não significa que quando o Tarantino fez os Oito Odiados , dos ladrões de banco, que ele seja um. Não significa que se eu falar que dou tiro, eu dou tiro.”
“A arte é uma expressão do ser, independente de qualquer coisa. O Rap, como qualquer outro gênero musical, é arte e tem de ser respeitado como tal. Nós podemos fazê-lo como quisermos, falar de qualquer coisa. É importante manifestar, deixar nosso posicionamento.”
E se era como qualquer outro tipo musical, indaguei o por quê da escolha pessoal pelo Rap. “Não é do Rap exatamente, é da arte. Qualquer parada que cê colocar e eu souber fazer, eu vou falar o que acredito e da maneira que me sentir melhor. Mas, uma coisa que facilita no Rap são as palavras.”
Esse pedaço da representatividade do RAP em Belo Horizonte desfigurou completamente minhas prepotentes certezas sobre tal realidade. Indagações antes tão abstratas ascendem em sua prioridade (na minha cabeça, claro), no mesmo passo em que as tão nobres constatações que deram início a esse artigo emergem no mais profundo grau de impertinência.
Essas gravações, concomitante ao processo de repetição e escrita, fez-me entender o quão superficial minha visão sempre será, a menos que me atreva a pesquisar sobre. Conheça sua cena, essa é uma pequena parte da minha.
Agradeço a quem me ama, a pesquisa continua.
Obrigá.
Beagá.
Se O Assunto É Rap, Então Que Seja Local - V!$H Artigos
Reviewed by Rafael Mafra
on
17 agosto
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