Opinião: Revisitando "Take Care" uma década depois


Em novembro deste ano, o segundo álbum de estúdio do Drake, “Take Care”, celebrará seu aniversário de dez anos. O projeto levou Drake a se tornar uma referência para artistas novatos do rap e do R&B, ajudando a dar continuidade a onda honesta, vulnerável e experimental que Kanye West e Kid Cudi começaram no mainstream entre 2008 e 2009, com os lançamentos de “808s & Heartbreak” e “Man On The Moon l”. 

“Take Care” foi liberado no dia 15 de novembro de 2011, através da Cash Money Records. O disco vendeu mais de 600 mil cópias em sua primeira semana e ainda foi agraciado com o Grammy de “Melhor Álbum de Rap” de 2012. 

Além das conquistas e números gritantes, “Take Care” foi o último álbum em que vemos Drake em seu ambiente natural antes de uma nítida modificação sonora no projeto “Nothing Was The Same”, lançado dois anos depois. Claro, as rimas clichês e os ritmos grudentos ainda são presentes em seus trabalhos recentes, mas nada soa tão Drake quanto “Take Care”. 

Composto de dezessete faixas, o disco repercute como um show de spoken-word melancólico sobre corações partidos, mudanças inevitáveis e a glorificação de uma chegada recente ao sucesso. Em “Take Care”, a obsessão de Drake por relacionamentos destruídos e mulheres indisponíveis atingiu um ápice glorioso.


O produtor Noah “40” Shebib, mão direita de Drake desde a mixtape “So Far Gone”, produziu basicamente o projeto inteiro. Seus instrumentais atmosféricos e recheados de samples de clássicos do hip-hop  como “Back That Ass Up”, do Juvenile, na confiante “Practice” — se encaixam perfeitamente com as melodias descontentes de Drake

O canadense The Weeknd também foi recrutado para o time de colaboradores do álbum. Além da faixa “Crew Love”, que mistura influências do Dubstep com R&B, Abel Tesfaye também contribuiu como produtor e compositor em outras tracks. Ademais, o artista também admitiu ter vendido para Drake grande parte da sua própria mixtape de estreia, "House of Balloons".

Nesse álbum também vimos o storytelling de Drake melhorar bastante em comparação com o antecedente “Thank Me Later”. Todas as faixas são histórias diferentes com a locução do rapper por cima, narrando suas conquistas e polindo coroas pesadas, mas também sendo cruelmente honesto sobre suas derrotas e perdas. “Headlines” e “Look What You’ve Done” ganham os respectivos holofotes nessas questões, mas são em faixas sobre relacionamentos e desconexões como “Shot For Me” e “Marvin's Room” que vemos que a maior qualidade de Drake é humanizar sentimentos considerados “frágeis” quando expressados por rappers. 


Apesar do evidente amadurecimento sonoro, “Take Care” também tem momentos decepcionantes. A faixa bônus, que depois se tornou single, “The Motto”, segue a mesma linha dos hits simplistas que inundaram o rap de 2011, além da participação entediante do Tyga. “HYFR (Hell Ya Fucking Right)”, em parceria com Lil Wayne, teria se encaixado muito melhor no “Tha Carter IV”. “Make Me Proud”, ao lado de Nicki Minaj, parece ser uma segunda parte de “Best I Ever Had”, e traz uma perspectiva feminina à narrativa. A track que dá nome ao álbum, “Take Care”, em participação com Rihanna, foi um tiro no escuro que acertou em cheio as rádios Pop. 

Em termos líricos, “Lord Knows” e “Under Ground Kings” ganham o pódio, mas todo mundo sabe que esse não é o forte do artista. Em compensação, a produção impecável e luxuosa de “Cameras/Good Ones Go”, o flow cravejado de versos sobre poder e fama de Kendrick Lamar no interlude "Buried Alive", e o solo de harmônica lindíssimo de Stevie Wonder, em “Doing It Wrong”, fazem alguns clichês passarem despercebidos. “The Real Her”, em parceria com Andre 3000 e “We’ll Be Fine” também merecem destaque, mas é “Over My Dead Body” que carrega a alma do projeto.

“Over My Dead Body” é uma reflexão sobre as expectativas ao redor da sua carreira, a exposição de sua vida pessoal e como o dinheiro resolve quase tudo, menos o que realmente importa. É uma introdução perfeita que mistura a esperança de dias melhores e o medo de perder tudo.


O álbum encerra com uma grande introspecção do rapper em relação aos conflitos e vantagens do dinheiro e da fama. “The Ride” é quando ele mostra que o ouvinte não entende de verdade a realidade dele, não importa o quanto ele divida com o público. A faixa termina com Drake dizendo o título do álbum, — “se cuida”, em português — como se estivesse se despedindo da sua antiga vida e aceitando o gosto agridoce do sucesso.

Já na notória capa do álbum, Drake estava no auge dos seus 25 anos, cercado de tons dourados e correntes de ouro no pescoço, mas parecendo reflexivo e desesperançoso. É uma imagem um tanto quanto simbólica para tudo conquistado até aquele momento, e tudo perdido no meio do caminho. 

“Take Care” foi um momento especial no hip-hop, e se você ouviu esse álbum pela primeira vez entre 2011 e 2013, sabe do que estou falando. Atualmente, depois das acusações de ghostwriting, memes, um filho misterioso e hits genéricos, é fácil esquecer a influência de Drake no mainstream. Apesar de todas as reviravoltas, é impossível negar a influência direta e indireta do artista na indústria musical.

Uma década inteira se passou e "Take Care" ainda não soa ultrapassado, forçado ou entediante como diversos outros discos lançados no mesmo ano. O álbum soa como Drake na sua forma mais autêntica e natural, sem malabarismos desnecessários para alcançar o topo da Billboard e sem sucumbir às expectivas do público. É o tipo de projeto que não pode ser recriado, não importa o quanto o rapper tente.