VISH: Esteticamente falando, qual seria o melhor modo de caracterizar o álbum EU VS EU ❓ Qual seria o principal embate que ocorre dentro da sua mente?
OGMECBABY: Eu versus eu não é uma guerra só minha, é uma guerra de todo mundo que precisa acreditar em você mesmo e batalhar contra você mesmo para se desafiar, sair da sua zona de conforto, procurar conhecimentos novos. Você, desafiando você mesmo a fazer uma parada, coloca você na posição de seu próprio inimigo e você, seu próprio amigo. Então, é você versus você sempre, tá ligado? Não é sobre eu versus eu, é sobre vocês versus vocês. Eu acho que o processo desse álbum, pra mim, foi um dos mais tranquilos que eu já fiz, porque foi num momento em que eu tava vendendo muitos shows fora do estado de São Paulo. Então, algumas fases foram gravadas no Rio de Janeiro, algumas fases foram gravadas em Brasília. Então, eu acho que foi uma fase em que eu não tava, tipo, obrigado a fazer um projeto e sim vivendo um projeto. Então, eu vivi esse projeto e depois distribuí ele. Não foi só produzido, foi vivido mesmo. Então, eu acho que foi uma liberdade, assim, da arte, que a música hoje em dia me trouxe, tá ligado? Eu poder trabalhar em algo em cima da minha vida mesmo, em si, do que eu tá tendo que parar e produzir alguma coisa porque eu tô precisando. Foi, tipo, tudo feito conforme tinha que ser. Fui pra Goiânia, fiz um som com o Big Fat, fui pro Rio de Janeiro, fiz um som com o Puto, com o Sheik, e assim eu fui fazendo o álbum.
VISH: Como você poderia definir a estética musical que encontramos em seu som?
OGMECBABY: Eu acho que a estética do meu som é muito relativa, por álbum, por música. Eu não consigo seguir uma métrica só, uma estética só. Eu posso, sim, fazer o mesmo type beat, mas eu sempre vou trazer algo diferente em cima disso. Eu posso, sim, rimar palavras iguais, mas elas têm contextos diferentes. Então, eu acho que a minha estética é, vamos dizer, fora da curva. Não tem um padrão, não tem uma forma certa de se fazer.
VISH: Afinal, qual seria a importância da palavra estética no seu mundo? Fale não apenas para o seu corre, mas também de uma visão geral no trap.
OGMECBABY: Pra mim, estética é mais do que só música, como você disse na pergunta. Estética é um modo de vida. Então, tipo assim, eu acho que a estética é maior do que o talento, do que o esforço, do que muita coisa. Porque, vamos dar um exemplo: se você sair na rua e tá sol, e você precisa usar um óculos, e ele não for da sua estética, você vai sair na rua, no sol, tomando sol na cara, pra não usar um óculos e ficar sem estética. Então, vamos dizer, se você sai na rua e tem um óculos bonito, você vai se proteger do sol na estética. Então, eu acho assim: estética não é só roupa, estética não é só música, estética é um estilo de vida, no meu ponto de vista.
VISH: Muita energia, fingimento de desmaios e itens no palco. Como vocês procuram e exploram os meios de entregar performances e bons shows para o público? Pretende fazer disso uma marca?
OGMECBABY: Eu acho que meus shows são algo bem natural, assim. Eu nunca penso em nada, nunca planejo nada, né? Mas eu sei que, toda vez que eu vou gravar um som, eu já basicamente sei o que fazer na performance daquele som. Ah, eu vou cantar isso? No show, eu tenho que fazer isso. Ah, eu vou fazer esse flow rápido? No show, eu canto os ad-libs. Ah, eu vou fazer esse flow cortado? Então, no show, eu vou cantar com respiro, tá ligado? Então, eu sempre deixo... Antes de eu finalizar a música, eu já crio ela sabendo como ela vai ser apresentada. Então, eu acho que meus shows são muito naturais. Em questão de desmaio, em questão de quando eu travo, em questão de tudo que eu faço, é meio que um complemento de cada palavra, cada barra, de cada... Tipo assim, é aquele swag, tá ligado? Pra ter molho, você tem que ter swag; pra você ter o swag, você tem que ter molho.
VISH: Como tem sido a recepção do público com seu último projeto e lançamentos? E, principalmente, a recepção dentro da sua área? O que pode nos falar sobre o cenário atual de Guarulhos?
OGMECBABY: Olha, Guarulhos é uma cidade onde o pessoal não sonha tanto, né? O pessoal acha que é meio que impossível você ir atrás de algo que você almeja. Um ou outro vai, um ou outro faz, mas é bem difícil as pessoas saírem da sua zona de conforto, porque é uma cidade distante de onde acontecem as coisas, tá ligado? Claramente, é mais perto para quem mora em outros estados, porque Guarulhos é no estado de São Paulo, mas aqui o pessoal não tem aquele pensamento de “querer é poder”, e, se você quer um bagulho, é possível você ter, é possível você fazer. Então, eu não sei se eu sou referência aqui ou não, mas eu sei que, no começo, eu não tive tanto apoio, tanta ajuda, tanto incentivo. E eu espero que eu esteja conseguindo passar essa credibilidade e essa parada para as pessoas poderem sonhar, poder acreditar e saber que é possível não só na música, mas em tudo. Então, o que você quiser fazer na sua vida, você é capaz, só tem que ir atrás. Eu acho que é isso. Acho que, quando as pessoas começam a acreditar mais nelas em si, mais nos sonhos delas, elas vão começar a valorizar e, vamos dizer assim, acreditar também nas metas das outras pessoas. Eu não sei se aqui eu sou referência ou não, mas quero passar essa confiança de que é possível.
VISH: O que mais vem por aí? O que pode nos revelar que será apresentado na sequência?
OGMECBABY: MIXTAPE TANK EM BREVE! Uma estética maior do que eu faço hoje em dia, uma evolução do OGMEC, um segundo passo para o meu futuro, porque eu sei que ainda não estou no meu melhor momento e tô longe de chegar nele, mas eu sei que o próximo passo que vou dar é maior do que o que estou fazendo hoje.
VISH: Muitas colaborações são encontradas em projetos e singles. Como é colaborar com você? Sente que tem desafiado e proposto novas waves para quem busca colaborar?
OGMECBABY: Olha, eu acho que não me desafia muito, não, porque, quando você vai fazer um projeto com alguém, uma colaboração, você meio que junta as duas mentes, então você exige um raciocínio só pra fazer algo acontecer. Mas, sim, eu tô tentando me desafiar. Eu não tenho muitas músicas com Auto-Tune. Eu tô transferindo Old Mac e Baby por Auto-Tune, porque eu quero começar a trazer waves novas, estéticas novas, flows novos, identidades novas, colaborações novas. Então, eu acho que esse processo vai ser bom pro momento em que eu tô agora. (Além da mixtape e Tank, vão sair outros projetos: eu no álbum de outras pessoas, eu em mixtapes de outras pessoas, feats, singles, e acho que é isso.) Quando você faz um feat com alguém, você junta duas mentes, duas vivências, duas realidades em uma parada só. Então, acho que isso é muito importante e diz muito sobre quem você é. Com quem você grava é com quem você conversa, e com quem você conversa é com quem você grava. Então, se você trabalha com uma pessoa, é porque você se dá bem com ela ou não. Mas, se você não se dá bem com uma pessoa, não quer dizer que você vai trabalhar com ela, entende? Então, é muito mais fácil você trabalhar com alguém, é muito mais fácil você deixar de trampar com alguém porque você não está se dando bem, do que você começar a trabalhar com alguém com quem você não se dá bem. Então, acho que isso diz muito de quem você é, né? Não que eu trabalhe com uma pessoa porque eu sou igual a ela, mas, se eu mantenho o trabalho com essa pessoa, é porque a gente tem algo em comum, sim. Então, isso é muito importante.
VISH: Como você enxerga o papel das variações de flow e produção ao longo de EU VS EU?
OGMECBABY: O processo de EU vs. EU foi muito natural, então eu já sabia o que rimar em cada beat, eu já sabia quem eu ia chamar pra cada beat, já tava meio que tudo planejado. Já sabia como eu ia começar e como eu ia terminar, eu só precisava fazer as coisas do jeito certo, no tempo certo. Eu não poderia fazer 10 músicas num dia, mas eu poderia fazer 10 músicas em 10 dias, então eu fui no tempo do álbum mesmo. Eu não forcei nada, o tempo que dizia o que ia acontecer. Se eu fosse pra Brasília, ia ter um feat de Brasília; se eu fosse pro Rio, ia ter um feat do Rio. Então, eu fui gravando conforme o tempo foi passando. Eu separei cinco meses — nem cinco —, eu trabalhei três meses. Foram três meses em que eu fui montando, aos pouquinhos, peça por peça do quebra-cabeça. E eu acho que é basicamente isso: EU vs. EU é mais VOCÊS x VOCÊS mesmo do que vocês contra o mundo ou vocês contra alguém. Eu vs. Eu sempre.