THIAGO ELNIÑO & SOUTO MC TROCAM IDEIA COM A VI$H EM CWB
| Após show no evento de hip hop Banguê, os rappers Thiago Elniño e Souto Mc sentaram em uma pista de skate com a VI$H para falar sobre o que acham um do outro, suas carreiras e o futuro. |
Fotografias por Zabmilita phts.
LAFUM 00: A primeira parada que eu queria saber é que vocês obviamente se conhecem, vocês tem uma dinâmica juntos que fica óbvia pelo jeito que vocês se tratam, eu queria saber de onde surgiu isso, essa ligação, esse contato.
THIAGO: Então, não tem aquele lance aqui em Curitiba dos cara que tipo são preto se reconhecem por serem poucos, então a gente é macumbeiro, então a gente se identifica imediatamente a partir daí, então isso já cria uma facilidade, a gente não tem que conversar muito pra criar assunto em comum, além disso nós somos do hip hop, o que já abre mais vínculos e ela é uma boa pessoa.
00: Quando foi o primeiro contato entre vocês?
SOUTO: Mano, então, eu não lembro se foi o Thiago ou eu que adicionei, acho que ouvi o som dele e fui atrás, achei muito foda esse lance dele de trazer ancestralidade mano e trazer esse discurso mesmo de raíz africana forte porque dentro do hip hop mesmo tem gente que tem um preconceito fudido com isso ta ligado, e ai eu achei foda, começamos a trocar uma idéia ai eu meio que conversei com ele vamo fazê um som e tal, daí dois meses depois nós ficamos sabendo que iríamos pra Curitiba e cá estamos.
00: Souto, você falou da ancestralidade que o Thiago traz dentro do som dele e eu queria ouvir do El Nino, o que você acha da luta da Souto por mais representatividade feminina no rap?
T: Mano acho fundamental, acho que é uma coisa que quem não tava no hip hop não tava panguando, tava esperando muito tempo que fossem as minas que trouxesse essa pauta e não podia ser a gente que traria com o volume de informação, sinceridade e vivência. Então eu tenho que ficar feliz, abaixar a cabeça e aprender.
S: O lance do Thiago o qual eu me identifico é justamente isso, é que a gente fazer parte de uma religião que é tão massacrada e humilhada diariamente. O Thiago também traz essa questão da luta negra que eu abaixo a cabeça e só ouço também mas tem muita gente no hip hop que tem preconceito com Umbanda, Candomblé ou qualquer coisa do tipo e eu acho que a gente tem que trazer esse discurso e eu acho que ele traz de forma genial.
T: A Umbanda é louca cara, é um rolê louco, porque dentro das coisas da Umbanda tem um bagulho que talvez as igrejas cristãs não tenham, as igrejas cristãs tem uma norma que todo mundo deve fazer as coisas seguindo um padrão e na Umbanda a gente entende que cada terreiro vai ter sua forma de trabalhar e vão ter diferenças e eu vou ter que respeitar as diferenças por que não é errado fazer uma coisa diferente, só respeito.
S: E é de casa pra casa, cada casa tem seu preceito, tem seu fundamento, e as práticas desses preceitos e fundamentos por que são diferentes de outra não é porque tá errado, aquela é verdadeira, aquela é falsa, não isso não existe, são preceitos e fundamentos que vão de casa pra casa.
T: Uma coisa que que fica óbvia de diferença da minha casa pra dela é que a minha casa tem filhos mais bonitos.
(risadas)
S: Pelo amor de deus Thiago, me poupe!
00: De onde vem o embate todo?
S: Porque o Thiago é trouxa mesmo só por isso mesmo!
(risadas)
T: É porque eu sou fantástico e às vezes as pessoas tem um ritmo um pouco mais lento pra perceberem toda minha cremosidade…
(risadas)
S: Mano respeita nós, existe um lema e uma lei chamado "respeita nós".
“Eu acho que um Mc interessante tem que ter uma vida interessante porque aí quem estiver aberto pra sentir a sinceridade e a verdade do que ele tá cantando vai sentir, aí tem uns Mcs que são burangão, que não tem uma vida interessante mas faz rap, ai tem uma molecada besta que não capta nada e vai nessa onda e fica ouvindo uns rapzinho pau mole pra caramba.”
00: Com o que vocês trampam? O que acrescenta no trampo que vocês estão fazendo no rap mas ao mesmo tempo não é necessariamente vinculado a isso?
T: Eu sou coordenador, o que me dá dinheiro mesmo, sou coordenador de um projeto social ligado ao hip hop, eu sou um Mc e um Mc não é só um cara que tá ali, quer dizer o Mc talvez seja, mas o hiphopper, esse cara do hip hop, é um cara que vai fazer outras coisas que dialogam com cultura hip hop, o cara pode ser um médico, o cara pode ser um traficante, o cara pode ser o que quiser ser se aproximando da cultura hip hop e dentro disso eu sou coordenador de um projeto social ligado ao cinema, então eu aproximo a comunidade a linguagem cinematográfica ao hip hop em outros momentos eu trabalho com comunidade carcerária ou com jovens dependentes químicos, eu tenho a felicidade de trabalhar com causas que não são felizes mas eu tô fazendo coisas ali que me edificam mais do que edificam qualquer um que eu esteja atendendo no trabalho... mas tô percebendo como ser um ser humano mais bacaninha nesses rolês, aí acabam me pagando pra esses rolês, o que é bom porque eu gosto de dinheiro. Eu acho que um Mc interessante tem que ter uma vida interessante porque aí quem estiver aberto pra sentir a sinceridade e a verdade do que ele tá cantando vai sentir, aí tem uns Mcs que são burangão, que não tem uma vida interessante mas faz rap, ai tem uma molecada besta que não capta nada e vai nessa onda e fica ouvindo uns rapzinho pau mole pra caramba.
S: Então, fiz licenciatura em história, tô no corre pra tentar ser professora porque eu tenho que esperar a boa vontade da prefeitura e do estado pra soltar um concurso pra nós pra exercer a profissão, tá foda viver de rap, precisa de uma renda fixa, todo ano em SP tem rolê de hip hop, tem trabalho com oficinas, e eu sempre participo de oficina de Mc, é foda porque é um dia pra ensinar pras crianças o que é ser Mc, tentar passar o básico, mas todo ano é uma experiência louca porque você vê como em lugares periféricos o rap e o hip hop não faz tanta presença, eles colocam cabresto e não tô falando de funk porque o funk assim como rap tem uma história de resistência e a gente não pode desmerecer isso, tô falando de todo lixo sonoro despejado na favela. Eu também faço parte de uma roda de Samba autoral, “Terreiro de Compositores”, nome do lugar, onde a cultura do compositor é muito fortalecida. O samba é o senhor mais velho dando conselho pro rap que é um moleque marrento e quando cheguei, cheguei com muito respeito mas eu senti a falta de nao ver uma mulher ali na roda, senti que tinha que chegar mulheres ali pra tocar, pra compor. Tudo o que eu quero na verdade é ouvir o que as mulheres precisam falar e tem muita mulher talentosa precisando falar.
00: Pros dois, quais foram suas maiores influências? Como foi na cidade de vocês?
T: É uma pergunta muito difícil mas acho que a primeira parada q eu posso trazer é que eu vim do rock cara, eu vim do rock, MTV, e isso foi uma parada que me levou pro Rap depois, em BH tem essa parada muito estranha porque tinha muito fã do Bon Jovi, todo mundo queria ser o Jon Bon Jovi, eu queria ser o Bon Jovi mas não podia, ia fazer o que? Passar chapinha? Ai eu não me identificava com esse rolê. Eu queria ser essa parada até que em determinado ponto chegou o New Metal que é uma das porcarias mais maravilhosas que já existiu e chegou o momento que essas pessoas começaram a se identificar com Mcs e eu fiquei tipo “opa?”
Eu odiava Racionais, tive uma educação muito embranquecida e por ser um moleque estudioso entendia que era uma uma cultura de mais qualidade e não entendia a profundidade gigantesca do Racionais e tava educado para entender as parada branca, aí dali fui descobrindo o Redman, Snoop Dogg e fui descobrindo a totalidade do bagulho.
Minha maior referência no hip hop é o Xis porque naquela época ele era o artista que participava de tudo, tava num cd do Rodox, tava num cd do Pavilhão 9, eu era o cara que via Casa dos Artistas só pra ver o Xis falar palavrão e fui descobrindo o Rap a partir daí, ao mesmo tempo o meu pai era Dj e trazia umas influências de eletrônicas: Prodigy, Enigma, eu gosto de fazer que meus refrões sejam refrões que as pessoas cantem junto e acho que isso veio muito do Pop e busco essa parada no meu Rap, eu acho que o homem começa a ter uma maturidade musical quando ele começa a entender o samba de uma forma massa e quando eu entendi o samba foi tipo “PUF.”
T: eu sou de Nárnia cara, (risos) minha cidade sempre foi foda com Rap, tinha uma cena massa de punk e hardcore e Volta Redonda tem Mcs muito bons que não conseguem ter um êxito comercial ou de visibilidade tão equivalente ao trampo que produzem. A capital tem as dificuldades dela e não tem tanto lugar pra suportar esse Rap, tem pro Rap festivo e mais branco mas é diferente do sudeste em relação ao nordeste porque o nordeste não era assistido, assim como as mulheres foram esquecidas aí os caras foram lá e fizeram Sulicídio que foi algo incrível, e agora em relação ao RJ é a hora de abrir as portas para o interior.
S: De Itaqua eu não posso falar porque faz muito tempo q não vou pra lá, mas antes de mais nada eu tenho o privilégio de morar no eixo mas mesmo assim a gente tem uma dificuldade porque é a seguinte, devido a todo esse pessoal tanto rapper quanto publico aparecendo predominantemente branco, homens hétero cheios da escrotice, e a gente é boicotada. Já aconteceu no meio do show os caras virar as costas, fazer boicote mesmo, não tem o mínimo pudor e assediar, sem respeitar mesmo. Mas agora as mulheres nessa nova geração de Mcs tem vindo com muita força nessa questão de se organizar e tem sido difícil, mas a gente consegue fazer produção, enquanto trabalhando num coletivo de mulheres e agora os caras tao vendo que não dá mais pra ignorar. Achei Sulicídio demais mas quando a gente fala de diss aqui no Rap nacional a gente não pode falar do amiguinho, se não tem a hipocrisia muito grande da desunião, e Sulicídio não foi diss, foi proposta de ataque a cena fonográfica. e sobre Machocídio a gente pensou em fazer esse lance de afrontamento mesmo e a gente tava fechando o projeto da DMNA e as minas chamaram a Luana Hansen e a mulher é demais, tive a oportunidade gravar no estúdio dela e quando a gente assistiu pensou que poderia fazer barulho mas não tanto barulho quanto fez, que o Rapadura viria comentar, a Lívia Cruz e muita gente viu, inclusive pra quem foi direcionado. A gente sabia que ia rolar escrachamento também mas em contrapartida foi foda porque muita mina veio dizer que se sentiu representada por isso.
“O samba é o senhor mais velho dando conselho pro rap que é um moleque marrento e quando cheguei, cheguei com muito respeito mas eu senti a falta de nao ver uma mulher ali na roda, senti que tinha que chegar mulheres ali pra tocar, pra compor. Tudo o que eu quero na verdade é ouvir o que as mulheres precisam falar e tem muita mulher talentosa precisando falar. “
00: Queria saber o que vocês acham do impacto da internet nessa cena do Rap atual.
T: A internet ainda não tá massa pro hip hop, tá pro rap, mas ainda não tá massa pros Bboys e grafiteiros, a internet é uma ferramenta fantástica mas muitas vezes é usada de forma errônea. A internet tá acessível para todo mundo mas as pessoas ainda tem dificuldade de buscar bons conteúdos e isso chega até o hip hop e a popularização se deu mas a maioria das coisas que conseguem uma grande circulação talvez não dialoga tanto com o conceito de hip hop que eu acho saudável. Melhorou um pouco mas a melhora não foi uma questão de “chegou a internet pra todo mundo” foi uma questão de encontrar caminhos para acessar uns aos outros.
S: Eu concordo com muita coisa que o Thiago falou, a internet vem hoje pra abrir caminhos e você seleciona coisas, não sei se infelizmente mas automaticamente você acaba levando ao seu olhar coisas que você gosta e nessa questão a gente consegue ver muitas coisas boas mas também em contrapartida tem todo um boicote ao Facebook porque se você não patrocina um lance ele te corta as asinhas e te joga o patrocinado na cara o tempo inteiro. Mas você também consegue selecionar trampos, você vê lá a ficha do malandro todinha e vê que não pode se associar mas também vem uma mina que te chamou pra um rolê e você vê que o rolê dela é mais daora. Tem sido uma ferramenta da hora mas também pode ser palco de tragédia.
00: O que influencia vocês dentro da arte, da vida em geral?
T: Desenho japonês, tá ligado? Eu me amarro em Neon Genesis Evangelion, Ghost in the Shell, tem literatura, arquitetura: o suíngue duro do Niemeyer muito cinema: Matrix, De Volta Para o Futuro, muito Orwell: 1984, Revolução dos Bichos; Moda me influencia pra caralho, eu absorvo de tudo, acho a natureza muito impactante mas no aspecto da funcionalidade dela, sua harmonia.
S: São questões que acontecem na rua sabe, situações, um cara andando de skate, morador de rua. Tem uma história que minha avó que era do interior do Maranhão e ela era lavadora de roupa, batia em pedra, e numa pira dessa com mais duas amigas minhas a gente começou a trocar idéia sobre isso e começou a escrever som sobre lavadeira; Eu procuro absorver mas não ocupar a vivência, tento ver e falar até onde me cabe e procuro ser respeitosa sempre. Filmes também, Django, Efeito Borboleta, A Cor Púrpura, literatura, documentários e o Thiago pra escrever umas rimas tipo “vamos matar uns macho”!
00: Hoje mesmo ambos tocaram no mesmo palco durante o Banguê, vocês assistiram o show um do outro? O que acharam?
S: Eu achei o show do Thiago fraco! (risos) Mano é uma aula, de verdade, eu nunca tinha visto ele ao vivo e o axé que ele traz pro show dele te traz uma energia que parece uma gira, o show dele tem energia de uma gira, você consegue ver o quão sincero ele consegue ser, o show dele é uma aula de verdade.
T: Eu sou mais velho e quando a gente é mais velho vai ficando muito chato e quando eu assisti a Souto vi muitas coisas que eu fazia muito funcionais que eu tenho um pouco de preguiça hoje, você vai perdendo umas belezas e purezas que quando você vê e sabe que o show dela que já ta bonito como tá, você tá acompanhando um artista em plena transformação que é muito mais bonito do que quando a gente se relaciona com a grande mídia, pra mim é bonito me enxergar e ver como me desenvolvi e fazia coisas que ela fazia no show dela e é humanizador pra mim independente dela ser mulher e da pauta. É muito bonito e puro.
*abraços trocados*
00: Tem alguém no olho de vocês pra esse ano? Positivamente e/ou negativamente.
S: 2017 vai ser do Thiago, tô muito ansiosa pra ver o impacto do novo disco dele e acho que ele tem q ir pra Marte fazer o som dele, ele é um artista em todos os sentidos da palavra. A Castanha tem que ser ouvida também, boto uma fé nela e óbvio na DMNA puxando uma sardinha pra mim, estamos com projetos muito bonitos, boto uma fé que esse ano vai ser muito bom pra DMNA.
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T: Eu chapei muito na DV Tribo, eles tem um bagulho que eu não concordo com 100% de tudo que eles estão pautando mas como a grande maioria, eles são muito jovens fazendo um negócio incrível e toda vez fico ansioso pra saber o que rola de lançamento, quero saber o que eles estão aprontando, o Djonga - o que ele tá tomando? - evolução de salto por segundo e são de um lugar que ficava escondido também que é BH e agora eles estão conseguindo espaço no cenário nacional. Acho que em 5 anos vão se solidificar e ficar muito importantes no Rap nacional. Fora isso também tem as meninas: a Soutinho, Ju Dorotea, são muito novas mas estao se desenvolvendo muito bem. Em BH a Tamara Franklin pra mim ela é uma rainha e é isso aí.
S: Tenho desejo de que tudo que é machista, racista, homofóbico suma da face da terra e pro Rap e paz.
T: *grito* PREDELLA!
(risos)
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FIM
Agradecimentos:
Gabriela Bieleski, Eduardo Camargo, Luana Auersvaldt, Bruno Cee, Iza Milita & VI$H.
Thiago Elniño & Souto trocam ideia com VI$H em CWB
Reviewed by lafum 00
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03 fevereiro
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